A hora de acordar, para mim, é um tormento. Tenho uma dificuldade verdadeira de reunir forças para abrir os olhos e levantar da cama. Ciente disso, cerco-me de algumas precauções, tais como programar o despertador para tocar mais cedo do que o necessário e a televisão para ligar no mesmo horário. E a televisão sempre liga no mesmo canal: a Globo. Aqueles que me conhecem perguntarão: Globo?!?!? Mas é verdade. Na Globo. Não sei bem por quê, mas já virou uma tradição. Sempre foi assim.
E todos os dias, quando já estou me arrumando para honrar o Galo, com a TV ainda ligada e no mesmo canal, está passando "Mais Você", aquele programa da Ana Maria Braga e do Louro José sobre nada em particular, destinado às donas de casa que tiveram que acordar cedo para alimentar os filhos antes deles irem para a escola e que não têm mais nada para fazer durante a manhã. Nele apresentam-se temas variadíssimos, que vão desde técnicas para manter a barba do maridão bem desenhada até as últimas tendências em termos de festas de casamento.
Hoje, particularmente, um tema provocou minha revolta. Estavam tratando sobre uma tal resolução do CONTRAN que obriga que todas as crianças de até não-sei-quantos anos andem somente naquelas cadeirinhas que se prendem no banco de trás do carro. E não estamos falando só de bebês. A tal resolução fala que crianças de até sete anos e meio devem andar em cadeirinhas. O descumprimento configura infração gravíssima e sujeita o crápula que permitir que seu filho fique, por exemplo, no colo da mãe, a uma multinha marota de R$ 191,54.

Não tenho nenhuma dúvida de que algum fabricante das tais cadeirinhas deve ter colocado alguma graninha na mão de algum desses pilantras do CONTRAN. Aliás, a primeira vez que eu vi alguma referência a essa obrigatoriedade foi no "Mais Você", alguns dias atrás, quando a Ana Maria estava fazendo propaganda desses produtos.
Hoje, quando o assunto veio novamente à tona, acreditei que fosse marketing também. Mas não. Era uma reportagem sobre como as cadeirinhas são maravilhosas e como é um absurdo que elas ainda não fossem obrigatórias. Tinha vídeos, entrevista com uma "especialista" (e, diga-se de passagem, é engraçado como a Globo sempre arranja instantaneamente um grande especialista para qualquer assunto que apareça), perguntas e respostas com a participação de pessoas aleatórias na rua e tudo.
Mas a resolução foi criticada. Criticada porque é mais uma ingerência indevida do estado na vida das pessoas? Porque é mais uma forma de transformar cidadãos em culpados por qualquer coisa? Porque é uma restrição à liberdade individual que nem mesmo foi estabelecida por lei? Não! Porque a obrigatoriedade só é aplicável aos carros de passeio! Segundo a apresentadora e os entrevistados, é um absurdo que os veículos de transporte escolar e, pasmem, de transporte público, não sejam obrigados a ter as malditas cadeirinhas!
Eu adoro as "estatísticas" que eles usam para justificar esse tipo de coisa. "Os acidentes de trânsito são a maior causa de morte de crianças". Mas é óbvio que sim!!! Ia ser o que? Infarto? AVC? Por favor... Aí falam quantas crianças morrem em acidentes de trânsito por ano. Não lembro o número, mas não importa. O incauto que está assistindo deve pensar "que horror!". E eles nunca param para fazer a conta inversa. Então eu pergunto: e quantas crianças NÃO morrem por ano em acidentes de trânsito? A resposta, obviamente é "todo o resto". No final das contas, a quantidade de crianças que morre em acidentes de trânsito representa um percentual insignificante do total de crianças, não justificando que se obrigue TODOS os pais a gastarem, em média, R$ 500 reais (e tem umas que custam quase R$ 1000!) por cada cadeirinha (e são três diferentes, dependendo da faixa etária). E, contanto que o filho desse sujeito não sofra um AVC aos dois anos de idade (porque no trânsito ele não vai morrer, graças à cadeirinha!), o infeliz vai precisar comprar as três para não ser (ainda mais) espoliado pelo estado.
E o governo continua defecando regras (porque agora nem precisa mais ser lei) com base em estatísticas fabricadas e o povinho continua aplaudindo. E querendo mais. A criatividade não tem limites. Estou até pensando em elaborar alguns projetos de lei: vamos proibir as mulheres de usarem saias, porque em não-sei-quantos-por-cento dos estupros, as vítimas usavam saias. Ou então vamos proibir que as pessoas saiam na rua depois das 22h, porque já está mais do que provado que a criminalidade é muito mais alta entre as 22h e as 5h... E o pior é que, no dia que algum retardado propuser isso, vai ter apoio popular. Quem sabe eu não me candidato à presidência e faço minha campanha em cima disso?
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